Governo e oposição venezuelanos assinam acordos parciais após segunda etapa de diálogos mediados pela Noruega

A segunda etapa dos diálogos realizados no México entre governo e oposição venezuelanos rendeu a assinatura de dois acordos. Na foto: O chefe da delegação do governo venezuelano, Jorge Rodriguez, que participa das negociações entre o governo venezuelano e a oposição na Cidade do México, em 6 de setembro de 2021.
A segunda etapa dos diálogos realizados no México entre governo e oposição venezuelanos rendeu a assinatura de dois acordos. Na foto: O chefe da delegação do governo venezuelano, Jorge Rodriguez, que participa das negociações entre o governo venezuelano e a oposição na Cidade do México, em 6 de setembro de 2021. AFP - PEDRO PARDO

A segunda etapa dos diálogos realizados nesta segunda-feira (6) na Cidade do México entre governo e oposição venezuelanos rendeu a assinatura de dois acordos parciais, informou Jorge Rodríguez, chefe da delegação chavista e presidente da Assembleia Nacional (AN). O chavismo busca legitimidade e o fim das sanções econômicas; e a oposição, eleições livres. A próxima rodada está prevista para o dia 24 de setembro. 

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Elianah Jorge, correspondente da RFI na Venezuela  

O primeiro acordo assinado por ambos os grupos nesta segunda-feira (6) enfoca a defesa e soberania da Guiana Essequiba, zona reclamada e de disputa histórica da Venezuela com a Guiana Inglesa. Para Rodríguez, a assinatura deste acordo é em prol do “direito inalienável da Venezuela sobre esta região”. 

Há alguns anos, nesta área de mais de 159 mil quilômetros quadrados, foram descobertas reservas de petróleo e de pedras preciosas. A região está sob domínio da Guiana Inglesa, mas a soberania é reclamada pela Venezuela seguindo o Acordo de Genebra, datado de 1966.

Outro acordo parcial anunciado na noite desta segunda-feira (6), último dia dessa etapa das conversas, enfoca a proteção social de sua população e da economia venezuelana.

“Tem a ver com a necessidade da Venezuela de recuperar o dinheiro sequestrado em contas no exterior. Que esse dinheiro seja rapidamente utilizado através do resgate de ativos”, declarou Rodríguez.

Segundo o chefe da delegação chavista, este acordo parcial visa ter reflexos no acesso ao financiamento proposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a luta conta a Covid-19 por meio da “aquisição de vacinas, a estruturação de hospitais e atenção ao povo venezuelano”, detalhou o presidente da AN.

“É muito bom que já tenhamos resultados nesse acordo e que possamos ter acesso a fundos de organismos internacionais”, frisou o chefe da delegação chavista. No entanto, Rodríguez destacou que “não precisamos pedir nem um centavo nem que nos deem nada, temos os recursos para adquirir os insumos”.

Em março de 2020 a Venezuela chegou a pedir US$ 5 bilhões ao FMI para lutar contra o coronavírus, mas o Fundo negou, afirmando “falta de clareza” em torno do reconhecimento internacional ao governo de Nicolás Maduro. 

Rodríguez afirmou que “ainda há muito trabalho, muitos temas a discutir, mas ficou claro que podemos abordar temas fortes. O resultado dessa mesa terá consequências para todos na Venezuela”.

Manutenção de Maduro no poder

Ambos os acordos parciais foram assinados pelo chefe da delegação chavista, Jorge Rodríguez, e pelo líder da delegação opositora, o político Gerardo Blyde, e por todos os participantes da mesa de diálogo.

Com este diálogo o chavismo visa legitimar a permanência de Nicolás Maduro no poder e na esfera política internacional.

Desta forma, o líder chavista busca flexibilizar a opinião de uma ala crítica da oposição, até pouco tempo colocada no limbo político, para conseguir, por meio desta mediação da Noruega, fazê-la entrar no jogo político.

Assim o governo de Maduro pretende mostrar uma faceta democrática em seu governo, consegue o aval internacional – até então nas mãos de Juan Guaidó - traz para perto um setor conservador da oposição e consegue manobrar o cenário econômico internacional para levar oxigênio à caótica economia venezuelana. 

Porém, Maduro garantiu aos meios de comunicação locais que o real objetivo do diálogo no México é uma negociação com o governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

“Quando nos sentamos naquela mesa, entendemos que nos sentamos com o governo dos EUA, porque essa Plataforma Unitária são os políticos dependentes das opiniões dos EUA, tanto em tempos de Trump como de Biden. Quando falamos com eles, falamos com os EUA, quando negociamos com eles, estamos negociando com os EUA”, afirmou Maduro.

Guaidó perde terreno

Juan Guaidó, que se mantém à margem dos diálogos, é quem mais tende a se enfraquecer com o sucesso das negociações. Caso o processo avance conforme esperado pelo chavismo, o opositor vai perder ainda mais terreno. Para ele o mais grave é deixar de ter apoio e reconhecimento internacionais, pontos cruciais para o chavismo.

No xadrez político dessas negociações até então o chavismo vem ganhando e dando as cartas. Uma das provas desse avanço foi a saída de Carlos Vecchio da mesa de diálogo. Vecchio é o representante de Juan Guaidó junto ao governo dos Estados Unidos.

Através de uma carta pública, o próprio Vecchio afirmou que “a administração de Nicolás Maduro se nega a continuar o processo de negociação iniciado no México se Carlos Vecchio continuar na delegação”. Este político venezuelano radicado nos EUA foi substituído por Freddy Guevara, representando o partido Voluntad Popular – o mesmo de Juan Guaidó, poucas semanas após ter sido solto por acusação de participar de ações terroristas pelo procurador geral da Venezuela.

Outra meta do chavismo é chegar a acordos políticos para a realização das eleições previstas para o próximo 21 de novembro. Porém, o principal foco - e talvez o mais complexo – é conseguir o levantamento das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Diálogo hermético

Os quatro dias de diálogos aconteceram sob forte sigilo, tanto por parte do chavismo como pela oposição. Este foi um dos acordos prévios aos diálogos. Apenas no último sábado (4), a Noruega divulgou a foto oficial da mesa de diálogo com as delegações. Domingo (5), o penúltimo dia das conversas, foi marcado por calorosas discussões.

As conversas aconteceram após a assinatura do memorando de entendimento entre as duas partes para chegar a uma série de acordos assinado em 13 de agosto. As negociações acontecem sob a mediação de Noruega e com o acompanhamento da Holanda e da Rússia.

Embora tenha ficado em Caracas, de onde acompanhou à distância os diálogos celebrados na Cidade do México, o presidente Nicolás Maduro afirmou que “a Venezuela caminha para um estágio de estabilidade política”. Para o presidente “os setores que seguiam a agenda da violência hoje em dia reconhecem a legitimidade do governo bolivariano”.

Além de Jorge Rodríguez, que é o presidente da AN e irmão da vice-presidente, Delcy Rodríguez, o chavismo enviou à Cidade do México o deputado e filho de Nicolás Maduro, Nicolás Maduro Guerra. Também estiveram na capital mexicana jovens expoentes do chavismo, caso de Génesis Garvett, deputada recém eleita ao parlamento venezuelano.

Já a ala opositora, liderada por Gerardo Blyde, contou com a participação do político Freddy Guevara. Guevara foi preso em julho deste ano, acusado de estar vinculado com grupos extremistas paramilitares ligados ao governo colombiano, de acordo com um comunicado assinado pelo procurador geral da Venezuela, Tarek Willian Saab. Ele foi solto dias após a primeira rodada dos diálogos realizados no México.

Liberação de presos políticos

Para a oposição, uma das bandeiras deste diálogo tem a ver com a libertação dos 264 presos políticos, números divulgados pela ONG Fórum Penal. Na noite desta segunda-feira (6), o assessor de Juan Guaidó, o jornalista Roland Carreño, preso arbitrariamente em outubro de 2020, foi levado da prisão ao hospital ao apresentar crise cardíaca. Após exames, foi confirmado que ele está com Covid-19.

O próximo encontro está previsto para o próximo dia 24 de setembro, também no México. Serão quatro dias de diálogos enfocados na economia venezuelana.

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