Pequim utiliza "narrativa americana" para punir gigante da tecnologia chinesa nos EUA

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Seda da gigante chinesa Didi que governo chines retaliou a recente ampliação da lista negra americana, com uma manobra ousada e inédita.
 
Sede em Pequim da gigante de tecnologia Didi que realizou o maior IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) de uma empresa chinesa nos EUA.
Seda da gigante chinesa Didi que governo chines retaliou a recente ampliação da lista negra americana, com uma manobra ousada e inédita. Sede em Pequim da gigante de tecnologia Didi que realizou o maior IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) de uma empresa chinesa nos EUA. STR AFP

O governo de Joe Biden vinha colocando pressão em empresas tecnológicas chinesas, como forma de punir Pequim em relação ao que considera desrespeito e violações à propriedade intelectual. No entanto, a questão do desenvolvimento tecnológico acelerado da China e as punições aplicadas pelos EUA, envolvem inúmeros temas e não só propriedade intelectual.

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Por Thiago de Aragão, de Washington

Biden ampliou o número de empresas chinesas na lista negra, onde empresas americanas não podem investir ou negociar, e as razões para isso são diversas.

Sim, a questão da propriedade intelectual é de grande importância, mas há também as razões de segurança nacional, direitos humanos, disputa hegemônica, pressão em relação à Taiwan e concorrência comercial. As razões podem variar, mas os ataques são similares: sanções à empresas, indivíduos ou ambos.

Essa semana, o governo chines retaliou a recente ampliação da lista negra americana, com uma manobra ousada e inédita.

A gigante de tecnologia Didi realizou o maior IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) de uma empresa chinesa nos EUA desde o IPO do Alibaba em 2014. Esse IPO movimentou o mercado americano,  colocando inúmeros fundos de investimentos como compradores de ações da Didi.

China quer ser vista como principal fornecedora tecnológica do mundo

Dias após o IPO, o governo chinês, via o órgão regulador de conteúdos digitais, aplicou uma multa e uma punição à Didi, além de ordenar que seus aplicativos sejam removidos de lojas digitais. Segundo o governo chinês, a Didi demonstrou recorrentes violações à privacidade de seus usuários. Curiosamente, o governo chinês aplicou uma decisão contra a Didi seguindo a mesma narrativa utilizada pelos EUA quando aplicam sanções a empresas chinesas. Outro ponto curioso, foi fazer isso exatamente após o IPO e não antes, o que teria protegido investidores e não faria do IPO o sucesso que foi.

A punição foi contra a Didi, mas foi principalmente, nos EUA, que viram a empresa arrecadar um alto volume durante sua estreia na Bolsa de Nova York e logo em seguida receber uma punição de Pequim sob a mesma narrativa americana.

De acordo com investidores de Nova York e de Hong Kong, a tendência é que a Didi logo volte para a posição que estava, sem o governo chines estender por muito tempo punições contra a empresa. Já que Pequim não aplicará punições contra empresas americanas com efeito relevante, podemos aguardar punições contra algumas empresas chinesas listadas em Nova York, com a mesma narrativa utilizada pelos americanos quando punem empresas chinesas. A lógica de Pequim, é que o receio de que novas empresas chinesas entrem na lista negra do governo americano, faça com que investidores e formadores de opinião nos EUA pressionem, de alguma forma, contra essas futuras decisões de Biden.

A China enxerga na popularização de sua tecnologia via aplicativos e equipamentos de boa qualidade e baixo custo, como uma forma de "soft-power" para ser vista como a principal fornecedora tecnológica do mundo. Uma das prioridades de Pequim é impedir as contínuas sanções americanas contra suas empresas.

Para fazer isso, entendem que não adianta argumentar diretamente contra o governo americano, mas estimular formadores de opiniões locais a fazerem isso por eles, de uma forma indireta.

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