Mulheres dominam temática de filmes brasileiros no Festival de Biarritz

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A atriz Pamella Yulle, em cena do filme "Madalena", de Madiano Marcheti.
A atriz Pamella Yulle, em cena do filme "Madalena", de Madiano Marcheti. © Arquivo pessoal

O Festival Biarritz América Latina, no sudoeste da França, chega à 30ª edição como um dos maiores eventos na Europa dedicados à cultura e ao cinema latino-americanos. O Brasil é representado por quatro filmes em competição, todos eles centrados em personagens mulheres.

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Daniella Franco, enviada especial da RFI a Biarritz

Neste ano, o país homenageado é o Peru. Dez produções do país são exibidas durante o festival, que conta também com uma retrospectiva do documentarista chileno Ignacio Agüero.

Dez longas de ficção, dez documentários e onze curtas-metragens, vindos de toda a América Latina, do México à Argentina, passando, claro, pelo Brasil, integram a competição oficial.

Na categoria ficção, concorrem “Capitu e o Capítulo”, de Julio Bressane, e “Madalena”, de Madiano Marcheti. Na categoria documentário, está “Edna”, de Eryk Rocha, e “Igual/Diferente/Ambas/Nenhuma”, de Adriana Barbosa e Fernanda Pessoa, que disputa o prêmio de curta-metragem.

No total, mais de 100 cineastas, atores e produtores participam presencialmente do festival. Ainda reflexo da pandemia de Covid-19, entre os representantes do Brasil, apenas Madiano Marcheti e Eryk Rocha puderam desembarcar em Biarritz.

Histórias de mulheres

“Igual/Diferente/Ambas/Nenhuma” mostra a relação de duas amigas - as autoras do curta Fernanda Pessoa e Adriana Barbosa - separadas pela pandemia de Covid-19. A obra exibe mensagens que as jovens trocaram em meados de 2020, momento crítico da crise sanitária, fazendo uma ponte entre São Paulo e Los Angeles, onde estão baseadas.

“Para a gente, essa exibição em Biarritz tem uma importância ainda maior porque o nosso filme foi feito durante a pandemia e estreou durante a pandemia, no ano passado, no Idfa [International Documentary Filmfestival Amsterdam], numa versão híbrida, com sessões de cinema e online. Mas agora no Festival de Biarritz é a primeira vez que o filme vai passar apenas em salas de cinema, então a gente vai ter a certeza de que o público vai encontrar com o filme da forma que a gente imaginou”, afirma Fernanda.

“É um grande privilégio ser parte desses filmes selecionados para serem exibidos em Biarritz e para mostrar os filmes latinos em outros territórios. Mostra o quanto essas histórias têm que ser compartilhadas além das fronteiras. É uma bela janela para o cinema latino-americano, um sinal de que nossas histórias precisam ser contadas e têm uma audiência pronta para assisti-las”, reitera Adriana.

“Madalena”, de Madiano Marcheti, trata do assassinato de uma mulher trans em uma fazenda de soja na região Centro-Oeste do Brasil. Na obra, o cineasta faz uma denúncia da banalização da transfobia e aborda também a devastação causada pelo agronegócio.

"Eu sou do Mato Grosso, nasci e cresci lá. Eu queria que meu primeiro filme fosse sobre esse lugar e os impactos que esse modelo de desenvolvimento ligado ao agronegócio traz para a região, para a natureza e para a vida das pessoas que vivem ali. No processo de pesquisa e de escrita, eu e os roteiristas focamos na questão da transfobia, porque pensando no espectro de violência e preconceito na comunidade LGBT, as pessoas trans são as que mais sofrem", diz Madiano Marcheti.

Em "Edna", de Eryk Rocha, que compete na categoria documentário, a personagem principal é uma sobrevivente da Guerrilha do Araguaia, movimento de resistência à ditadura militar no Brasil, na região amazônica entre o final dos anos 1960 e meados da década de 1970. Na obra, a paraense choca o espectador com as dramáticas experiências que vivenciou em uma das regiões mais violentas do Brasil, mas também seduz o público com seus inebriantes relatos, que misturam duras lembranças a sonhos e poesia.

“A Edna é ela, mas representa milhares de mulheres no Brasil, na América Latina, no mundo. A história que Edna conta é a dela, mas, por trás, há uma multidão de histórias de outras mulheres, vítimas de violência, da opressão, do machismo, da ditatura militar no Brasil”, ressalta Eryk Rocha.

“Capitu e o Capítulo” faz uma espécie de "distorção" da emblemática obra "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Quem encarna esta que é a mais célebre personagem do escritor é a atriz brasileira Mariana Ximenes.

 

O Festival Biarritz América Latina se encerra no próximo domingo, 3 de outubro.

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