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RFI Convida

Pesquisadora investiga os desafios da reestruturação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Áudio 07:11
Júlia Donley
Júlia Donley © Arquivo Pessoal
Por: Márcia Bechara
12 min

As orquestras sinfônicas são um fenômeno urbano, verdadeiros ícones cívicos que ajudam a dar forma e preservar a identidade de suas comunidades. Para conversar com a RFI sobre a reestruturação da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), que virou um case internacional, convidamos Júlia Donley, flautista e professora de música do conservatório de Soisy-sur-Seine, e mestranda da Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais de Paris (EHESS).

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As orquestras sinfônicas floresceram primeiramente na Europa do século XVIII, quando a urbanização se acelerou no planeta. Antes, no século XIII, os músicos nômades começaram a estabelecer-se nas cidades mercantes que cresciam, apresentando-se em festividades cívicas, religiosas e particulares. Personagem da época, o célebre Johann Sebastian Bach, por exemplo, passou a maior parte de sua vida (1685-1750) como um funcionário municipal, cujo trabalho era criar, organizar e dirigir música para a igreja e ocasiões cívicas. Mas as orquestras contemporâneas enfrentam desafios muito diferentes dos da Idade Média, como conta a música e pequisadora Júlia Donley.

Durante os últimos anos a Osesp - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, transformou-se num conjunto de padrão internacional em uma das mais surpreendentes recuperações nos anais recentes da música clássica. As mudanças foram repentinas e dramáticas.

"A orquestra hoje --sem contar a crise relativa à pandemia da Covid-19-- possui um público muito maior que no período pré-restruturação. Atividades educativas para escolas públicas e privadas, visitas guiadas no prédio e formação de professores são atividades frequentes no ambiente da Sala São Paulo", detalha Donley, que prepara uma pesquisa sobre a reestruturação da Osesp na EHESS. "O público dos concertos, apesar de maior, ainda não é representativo da diversidade da sociedade brasileira, no que concerne classes sociais e diversidade racial", afirma.

"Apesar da conquista da estabilidade no início dos anos 2000, principalmente com a criação da Fundação Osesp em 2005, a Osesp não escapa ao contexto do mundo globalizado de precariazação do trabalho e tende a atingir majoritariamente os empregos periféricos da instituição. Não é impossível, no entanto, que a crise da Covid-19, que reduziu drasticamente a quantidade de público presente nos concertos, provoque efeitos na própria orquestra, visto o que tem ocorrido em grupos similares do Estado de São Paulo que possuem menos poder econômico ou mesmo em grandes instituições como as orquestras estadunidenses", explica Donley.

Músicos do leste europeu

A pesquisadora conta que na reestruturação da Osesp, os músicos vindos da Europa do Leste tiveram um espaço especial. "Com o fim da União Soviética, e os países que haviam vivido a experiência socialista se encontravam em grande precariedade. Pela falta de trabalho que existia na Europa do Leste, muitas orquestras brasileiras, não só a Osesp, mas muitas outras, como a de Manaus, a de Ribeirão Preto, a Filarmônica de Minas Gerais, começaram a recrutar músicos dessa região e faziam audições diretamente em países como a Bulgária e a Romênia, e traziam esses músicos para o Brasil", conta a flautista.

"O que não quer dizer que tudo era flores", contextualiza. "Os músicos saíam de uma condição muito complexa, onde recebiam cerca de US$ 200 por mês para viver das orquestras estatais, e quando eles chegam ao Brasil, eles ganham mais, mas isso não necessariamente vai se traduzir numa relação de trabalho estável", pontua Donley.

"No caso da Osesp, eles conseguiram finalmente contratar estes músicos definitivamente em 2005, ou seja, quase oito anos onde esse músicos do leste europeu viveram à deriva em nosso país", diz.

"Estes músicos têm um foco muito interessante na escola de cordas, muito influenciada pela escola russa", detalha Júlia. "A música russa sempre foi uma escola muito forte na música erudita e a população que viveu a experiência soviética têm acesso a esse ensino porque ele é oferecido pelas escolas públicas estatais", afirma. "Tem uma tradição muito forte, um nível e uma competência muito altas que não necessariamente se traduzem em condições de trabalho estáveis", diz.

* Para ouvir o programa na íntegra, basta clicar acima no botão PLAY

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