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Variante 'brasileira' P1 pode ter carga viral até 10 vezes maior que outras cepas, diz cientista da Fiocruz

Áudio 10:47
Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz Amazônia
Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz Amazônia © Arquivo pessoal

A variante P1 do coronavírus, originária do Estado do Amazonas, agrava ainda mais a situação da pandemia de Covid-19 no Brasil e preocupa todo mundo, o que motivou, inclusive, que a França suspendesse temporariamente os voos com o Brasil. E não é por menos: a P1, como é chamada a variante, pode ter uma carga viral até 10 vezes maior que as outras cepas identificadas até agora do SARS-CoV-2. É o que revela um estudo de epidemiologia genômica assinado por 29 pesquisadores brasileiros da área de virologia.

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Em entrevista à RFI, o cientista Felipe Naveca, da Fiocruz Amazônia, à frente da equipe de cientistas responsáveis pela pesquisa, explica que a variante P1 é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), junto com a B.1.351 e a B.1.157, como uma das três variantes que causam maior preocupação neste momento.

A variante P1 apresenta variações na proteína Spike, na superfície do vírus, em três regiões importantes, as mesmas alterações que são encontradas na variante B.1.351. Essas mutações estariam associadas à maior transmissão do vírus, e com a evasão do sistema imune através da emissão de respostas dos anticorpos.

“Esse ponto já chamava a atenção desde o início dessa detecção, mas também o fato de que sua frequência aumentou muito rapidamente entre as variantes em circulação no Amazonas: até novembro não havia nada. Em dezembro, quando aparece, ela passa a corresponder a em torno de 35% [das infecções] e, em janeiro, já era mais de 75%. Hoje nós temos praticamente só a P1 circulando no Amazonas e o mesmo cenário está acontecendo em outros estados brasileiros. Por isso, esta é uma variante de muita preocupação”, relata Naveca.

A carga viral muito mais alta que a média, identificada pelo estudo, pode justificar, inclusive, porque a crise que se instaurou no Amazonas já fez mais vítimas este ano, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro, do que durante todo o ano de 2020.

“Acredito que esta carga viral mais alta facilite a transmissão do vírus. Os pacientes têm mais vírus nas secreções de nasofaringe, é mais fácil que este vírus seja transmitido para outras pessoas. Se observarmos o período quando a P1 emerge – em dezembro do ano passado, com as férias de final de ano, Natal, Ano Novo, situações em que as pessoas acabam se aproximando mais, mesmo que não devam –, achamos que foi o cenário perfeito para a disseminação de uma variante com um poder ainda maior de transmissão”, teoriza o pesquisador da Fiocruz Amazônia.

Mais jovens infectados

De acordo com Naveca, a variante P1 poderia justificar também o aumento de casos entre pessoas mais jovens, abaixo da faixa etária dos 60 anos (adultos entre 18 e 59 anos), durante a segunda onda da pandemia da Covid-19, mas não seria o único fator que explicaria esse quadro.

“A variante tem sido associada ao maior número de infecção de pessoas mais jovens, mas eu diria que essa não é a única variável. É preciso entender também que esse grupo se expõe mais, tanto no trabalho quanto aqueles que insistem em fazer aglomerações. Estão ocorrendo festas clandestinas no Brasil inteiro, e geralmente são pessoas mais jovens que estão nesse meio. São pessoas que acreditam que, mesmo que peguem a doença, terão uma resposta mais tranquila. E nós temos ouvido relatos de médicos dizendo exatamente o contrário. Então, tem vários fatores aí. Mas certamente a causa por trás do avanço da Covid-19 no Brasil nesse momento é a P1”, afirma o cientista.

O estudo foi realizado entre março de 2020 e janeiro de 2021, com pacientes de 25 municípios do estado do Amazonas. Ao longo desse quase um ano de pesquisa, os cientistas identificaram que a primeira variante que predominou no Amazonas, durante a primeira onda da pandemia, foi uma linhagem chamada B.1.195. Curiosamente essa linhagem pouco circulou em outros estados brasileiros. Também na primeira fase da pandemia no Amazonas, os pesquisadores detectaram a introdução da linhagem B.1.128, e essa foi identificada diversas vezes em diferentes regiões do Brasil.

De acordo com Felipe Naveca, esta linhagem passa a circular por muito tempo e, em setembro, substitui completamente a B.1.195 como principal. “Acreditamos que esse período de muito tempo circulando, em várias regiões dentro do estado, pode ter dado ao vírus a oportunidade de experimentar diferentes cenários, em que as mutações trouxeram vantagens para o vírus”, relata.

Ele acrescenta que, em dezembro, quando a P1 surge, esta já aparece com várias mutações em relação à B.1.128, e com um aumento de frequência muito grande. “A P1 já surge se espalhando muito rapidamente. Então isso demonstra que a variante tem vantagens em relação às outras”, conclui o pesquisador da Fiocruz e coordenador do estudo.

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