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“O Brasil e o mundo podem viver um novo tempo se incorporarem os valores da ancestralidade negra”, diz antropólogo

Áudio 24:24
O antropólogo, doutor em Ciências Sociais e babalorixá Rodney William, autor do livro “Apropriação Cultural” (editora Jandaíra), que faz parte da coleção Feminismos Plurais.
O antropólogo, doutor em Ciências Sociais e babalorixá Rodney William, autor do livro “Apropriação Cultural” (editora Jandaíra), que faz parte da coleção Feminismos Plurais. © Divulgação/Feminismos Plurais

O antropólogo, doutor em Ciências Sociais e babalorixá Rodney William é autor do livro “Apropriação Cultural”, publicado no Brasil pela editora Jandaíra e traduzido na França pela Anacaona Éditions. A obra atravessou o oceano e foi recentemente selecionada para o programa do mestrado de Interculturalidade na universidade Sorbonne, em Paris. Em entrevista à RFI, Rodney falou sobre essa conquista e os desafios de abordar essa questão.

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Para o antropólogo, ter seu livro adotado por um dos programas de pós-graduação da Sorbonne foi “uma surpresa e uma grande alegria”. “A intenção é levar para outros lugares e para outras pessoas, tanto no Brasil quanto no mundo, a perspectiva de uma epistemologia de resistência”, diz Rodney.

“Apropriação Cultural” é o sétimo volume da coleção “Feminismos Plurais”, um projeto coordenado pela filósofa e ativista Djamila Ribeiro. O objetivo é disseminar conteúdo crítico sobre questões vinculadas ao racismo e à realidade de mulheres e homens negros em debate no Brasil.

“É sempre o contrário que geralmente acontece: nós, do Hemisfério Sul, recebemos todos os saberes que são produzidos no Hemifério Norte. A nossa formação, geralmente, é muito eurocêntrica, o que quer dizer que às vezes é uma formação colonialista e branca. Então, com essa coleção, trazemos uma outra perspectiva, que é uma mudança que já vem sendo implementada dentro das universidades no Brasil. Professores e alunos negros têm trazido uma visão ‘decolonial’, sobretudo sobre os estudos que são importantes sobre o nosso povo”, explica Rodney.

O antropólogo explica que a ideia de escrever o livro ocorreu após a publicação, em 2017, de um artigo de sua autoria sobre apropriação cultural na revista Carta Capital, intitulado “Sobre capoeira gospel, bolinho de Jesus e afins”. Segundo ele, o debate sobre a questão já vinha sendo realizado no Brasil, mas precisava ser aprofundado. Foi neste momento que Rodney recebeu o convite de Djamila Ribeiro para tratar sobre essa temática na coleção Feminismos Plurais.

“Foi um momento muito feliz para mim porque foi a possibilidade também de revisitar um trabalho de pesquisa que eu fiz no meu doutorado, mas que de certa forma não me deixou satisfeito. Eu estava muito amarrado àquelas questões acadêmicas que são ainda muito complicadas aqui no Brasil, sobretudo quando a gente passa um processo de assédio moral que vem disfarçado de orientação”, observa.

Debate limitado

Rodney conta que quando começou a pesquisa sobre apropriação cultural e o que vinha se debatendo na época sobre essa temática nas redes sociais, a abordagem estava extremamente limitada. Por isso, o antropólogo resolveu fazer um aprofundamento do assunto, resgatando até mesmo as origens do termo apresentadas no livro “O Genocídio do Negro Brasileiro”. Nesta obra que desmistifica a ideia de democracia racial no Brasil, o escritor Abdias do Nascimento trata dos fenômenos da aculturação, sincretismo e miscigenação como processos de apagamento e esvaziamento da cultura negra no país.

“Eu percebi que a noção de apropriação cultural estava muito limitada ao que se pode ou não se pode, mais especificamente sobre a possibilidade de pessoas negras proibirem pessoas brancas de usarem isso ou aquilo. Então, eu revisitei o professor Abdias do Nascimento, como Lélia Gonzalez, Neusa Santos Souza e muitos outros autores negros, mas também os clássicos da antropologia, Claude Lévi-Strauss, Clifford Geertz. A partir daí, eu pude chegar a um conceito de apropriação cultural, que vincula a questão a todo o processo de subalternidade ao qual povos que são historicamente minorizados têm passado”.

Entre as principais reflexões do livro está a vinculação de conceitos, como a diversidade, uma noção que Rodney associa à resistência. O antropólogo define a relação entre essas concepções como “uma encruzilhada de saberes”.

“É como o conceito de aculturação, que em um determinado momento teve de ser deslocado para esse conceito de apropriação cultural para que desse conta de suas implicações com o racismo, com todo o processo de colonização e também com o capitalismo e a sociedade de consumo. A gente entende que o colonialismo é continuidade do escravismo, assim como o capitalismo dá continuidade ao colonialismo.”

Pacto narcísico da branquitude

Tratar de temas relacionados ao racismo ainda é um grande desafio na sociedade brasileira, ainda extremamente impermeável a essas temáticas. Os próprios governantes do país se recusam a reconhecer a perpetuação desse problema histórico entre os cidadãos, falhando em propor e adotar políticas públicas contra as discriminações raciais.

Para Rodney isso justifica, por exemplo, a inflexibilidade dos brancos em se aproximar das problemáticas levantadas pelo povo negro, um conceito definido como “pacto narcísico da branquitude” pela psicóloga e pesquisadora Maria Aparecida Bento.

“O pacto narcísico da branquitude ainda opera nas relações e sempre acaba abordando questões relacionadas ao racismo com superficialidade e uma falsa simetria. Por exemplo, quando se discute o porquê de pessoas brancas não poderem usar tranças ou dreads, os brancos reagem questionando: ‘mas se o preto pode alisar o cabelo ou pintar seu cabelo de loiro, porque eu não posso usar tranças?’. Ou seja, essa falsa simetria precisa ser debatida dentro desse âmbito de desigualdade que se construiu”, defende.

Afinal, para o antropólogo, falar de apropriação cultural é abordar um processo de desigualdade que foi construído socialmente e que só vai começar a ser resolvido se for denunciado.

“Não se trata do preto proibir o branco de usar isso ou aquilo. Estamos falando de questões culturais profundas, do significado das coisas. Por exemplo, há brancos que fazem parte dos terreiros de candomblé e obviamente esses brancos vão usar turbantes. Mas eles conhecem o significado do turbante. Eles não vão esvaziá-lo desses significados e sentidos e transformá-lo num produto que vai ser comercializado em shoppings a preços absurdos, sem dar nenhum crédito à população que criou esses elementos culturais”, explica.

Evolução da humanidade

Essa falta de conhecimento de boa parte da sociedade brasileira sobre uma cultura que diz respeito a 54% da população do país demonstra o quanto é urgente debater essas questões. Popularizar as vivências e os saberes relacionados aos afrodescentes não é apenas uma obrigação histórica, mas uma forma de incentivar a humanidade a evoluir como um todo.

“Acredito que o Brasil e o mundo podem viver um novo tempo se passarem a incorporar os valores da ancestralidade negra. Eles são uma forma de fortalecimento não só de pessoas negras, mas de qualquer ser humano. O caminho de luta e de resistência que o povo preto percorreu ajuda muito pessoas que passam por situações de sofrimento a superar e a viver uma nova perspectiva de encontro com a felicidade. Eu sempre gosto de dizer que a felicidade é uma obrigação ancestral”, conclui.

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