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“Inabitável”, ficção científica LGBT brasileira, é premiada em festival de cinema de Toulouse

Áudio 24:15
Da esquerda para a direita, as atrizes Erlene Melo, Luciana Souza  e Sophia William em “Inabitável”.
Da esquerda para a direita, as atrizes Erlene Melo, Luciana Souza e Sophia William em “Inabitável”. © Gustavo Pessoa

Uma ficção científica engajada na causa LGBTQIA+. “Inabitável” vem conquistando o público e a crítica de festivais brasileiros e internacionais. Em Toulouse, no sudoeste da França, onde está sendo realizado o Cinélatino, não foi diferente: os cineastas pernambucanos Enock Carvalho e Matheus Farias conquistaram o prêmio de revelação de curta-metragem de ficção, embora não possam estar presentes devido à pandemia de Covid-19.

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Enock e Matheus não escondem a frustração de não poder acompanhar o sucesso de “Inabitável” por onde o curta passa. Devido à grave crise sanitária da qual o Brasil é palco e as restrições a cidadãos brasileiros no exterior, os cineastas não podem viajar para outros países.

“Já se completou um ano que o filme está viajando sem a gente. Acompanhamos tudo pela tela do computador, participando dos debates e festivais de maneira online. De longe, essa é a melhor maneira de acompanharmos nosso filme”, afirma Matheus. 

“Inabitável” se passa em Recife (PE) e conta a história de Marilene, interpretada pela brilhante atriz Luciana Souza (“Bacurau”, “Ó Paí, ó”), que busca a filha Roberta, transexual que está desaparecida depois de ter ido a uma festa. Esse poderia ser o enredo de um drama cotidianamente vivenciado pela população LBTQIA+ no Brasil. Mas é um filme de ficção científica.

Surpreendente e intrigante, com atuações de peso e uma fotografia impecável, o curta consegue juntar dois universos inimagináveis, denunciando uma violência insuportável, mas dentro de uma dimensão distópica. Em entrevista à RFI, os dois cineastas explicam que são fãs de filmes de ficção científica e de horror, mas também do cinema de gênero.

“'Inabitável' é um horror da vida real. O Brasil, pelo 13° ano consecutivo, é o país que mais mata LGBTs e transexuais, principalmente, no mundo. Mas, nós, como realizadores, LGBTs, nordestinos, queríamos dar um novo final para essa história e pegar o público de surpresa para projetar uma esperança para o futuro”, afirma Matheus.

Segundo Enock, além de cativar os espectadores, o curta surpreende ao expor uma realidade de violências transfóbicas no Brasil, mas desconhecida fora do país. “Desde a estreia do filme, no ano passado, a gente vem acompanhando a repercussão pela internet. Recebemos muitos comentários de pessoas de fora do Brasil, que ficam horrorizadas ao tomar conhecimento sobre essa violência cotidiana aqui. E esse é o grande potencial do filme: fazer com que as pessoas sejam apresentadas a um universo que elas conhecem tão pouco, que habita a periferia do Brasil com pessoas trans, com pessoas negras, e endossar o debate sobre a questão”, diz.

Os cineastas Enock Carvalho (esquerda) e Matheus Farias, realizadores de “Inabitável”.
Os cineastas Enock Carvalho (esquerda) e Matheus Farias, realizadores de “Inabitável”. © João-Penna

Um mundo inabitável

“Inabitável” pode remeter ao Brasil de hoje em vários aspectos: políticos, sociais, ambientais. No curta, a denúncia contra as injustiças e desigualdades é clara da parte dos dois cineastas.

“É como se fosse o nossos statement, a nossa visão de que esse mundo tem sérios problemas a serem resolvidos e que estamos longe de ter um lugar onde seja plenamente possível se viver sem termos que nos preocupar em perder nossas vidas”, explica Enock.

“Todos os dias no Brasil desaparecem ou morrem muitas Robertas, muitas Marielles, muitas mulheres pretas grávidas, como as que morreram assassinadas com balas perdidas nesta semana no Rio. Estas pessoas estão morrendo diariamente. E o motivo dessas mortes é o ódio. Por isso, esse filme é uma mensagem na garrafa para o futuro”, completa Matheus.

Um futuro sobre o qual os dois pernambucanos não perdem as esperanças, mas sem esconder a insatisfação, a começar pela própria profissão que escolheram e a situação do setor do audiovisual no Brasil, submetido ao desmonte imposto pelo governo de Jair Bolsonaro.

“Desde que Bolsonaro foi eleito, não se lançam mais editais públicos para a produção cinematográfica no Brasil. Então, não se produz mais cinema no Brasil. O dinheiro para isso está parado porque sua liberação vem atrelada a uma ameaça sobre o conteúdo desses filmes. Vivemos um estado de exceção no Brasil e nas artes”, alerta Matheus.

Os pernambucanos lembram que a Cinemateca Brasileira está fechada e sem funcionários há 15 meses. Devido à falta de manutenção, cerca de mil filmes que fazem parte do acervo do local podem inclusive ter sido perdidos.

“Não é só a cultura de agora que está sendo perdida, é a cultura da nossa história. Isso não é apenas falta de cuidado com os artistas e a cultura do Brasil. É uma ação afirmativa contra a classe artística brasileira. E a gente sabe que um país sem cultura é um país sem vida, expressão e voz”, reitera Matheus.

A dupla trabalha atualmente na produção de seu primeiro longa, mas o projeto está parado na fase de captação devido à crise gerada pela pandemia de Covid-19. Os realizadores acreditam que 2022 pode ser definitivo para uma mudança deste panorama.

“O Brasil já chegou a ter 300 filmes lançados em um ano. Provavelmente no final de 2021 vamos ter um número que será 10% desta quantidade, ou menos. Mas temos esperanças de que as coisas podem e precisam melhorar. Por isso é necessário pensar claramente nas próximas eleições e em quem a gente quer ver no poder. A cultura, a educação e a saúde do Brasil dependem disso”, conclui Enock.

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