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Novo romance de Godofredo de Oliveira Neto lançado na França denuncia atual clima de “dissimulação”

O escritor Godofredo de Oliveira Neto.
O escritor Godofredo de Oliveira Neto. © Fotomontagem com arquivo Pessoal

“Esquisse” é o terceiro romance de Godofredo de Oliveira Neto traduzido para o francês. O último livro do escritor catarinense, radicado no Rio de Janeiro, chega às livrarias francesas antes de ser publicado no Brasil.

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“Não é a primeira vez que um livro brasileiro é publicado primeiro na França, mas há poucos casos. Minha editora, a Record, está com muita coisa acumulada e sugeriu mais para frente. Houve uma ‘apaixonite’ geral do editor e o tradutor francês, e ele [o livro] foi publicado antes na França. Para mim, isso é inédito”, revela o escritor à RFI.

Godofredo de Oliveira Neto tem mais de 16 livros publicados, muitos deles premiados. Formado em Letras e em Altos Estudos Internacionais pela Sorbonne de Paris, ele é professor de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Esquisse" foi traduzido por Richard Roux e Claire Accart e publicado na França pela editora Envolume, que é a mesma que já publicou em francês seus romances "Amores Exilados" e o "Menino Oculto".

Houve uma troca intensa com o editor e os tradutores. Na versão francesa, ocorreu uma mudança na ordem da narrativa. “Como é original, o editor se viu nessa possibilidade de propor uma mudança na ordem dos capítulos. Acho que ficou melhor para o leitor francês”, concede Oliveira Neto.

Entre Veneza, Nova York e Brasil: entre mentira e realidade

“Esquisse” se passa entre Veneza, Nova York e o Brasil, e conta as expectativas de uma família brasileira de origem italiana de recuperar, como herança, um esboço do pintor holandês Jérôme Bosch. No livro, essa promessa de um futuro melhor se confronta com um presente assustador.

A escrita ágil de Oliveira Neto, narrada na primeira pessoa, é repleta de citações e referências culturais - artísticas, literárias, cinematográficas e musicais - contemporâneas. O narrador, Luigi, é inseguro e viciado em “ansiolíticos”. O romance, que se passa no momento em que um vírus estranho vindo da China começa a ameaçar o mundo, navega entre sonho, pesadelo, alucinação e realidade.

O livro já começa com uma ambiguidade entre ficção e realidade, colocando na epígrafe uma citação de Nikki KML, personagem do livro “A ficcionista”, de autoria de Godofredo. “Achei que cabia bem porque o que me levou a escrever esse livro foi a questão das fake news, das mentiras, um pouco da loucura”, revela o escritor.

“A extração da pedra da loucura”

A escolha do esboço do quadro de Bosch que a família teria herdado, “A extração da pedra da loucura”, reforça essa crítica do tempo presente feita por “Esquisse”. “Quando passei uma temporada em Veneza dando aulas, eu passava na frente de um museu onde estão os quadros do Bosch, e uma vez por semana eu entrava para ver. Aquilo me impressionou muito”, conta.

Ele lembra que na época “estava começando a história do coronavírus, a questão da política americana, da política brasileira, essa prática de conscientemente dizer uma coisa que é mentira e amanhã desmentir, que cria esse clima que o mundo ocidental, e o Brasil particularmente, está vivendo, dessa insegurança, dessa dissimulação”.

O romance policial é “uma disputa entre a razão e a emoção”, que tem um final um pouco otimista. “Luigi recupera o esboço, que não valia o que tinham dito. Mas ele se considera um vencedor. Eu coloquei um fio que faz pensar e faz avançar. Ele volta com uma outra concepção do que seja o Movimento Negro no Brasil. Ele vai se dar conta nos Estados Unidos que ele não é branco. Ele volta com o esboço e volta principalmente com essa intenção de que agora vai lutar por um Brasil mais justo e mais objetivo”.

Ainda não há data para o lançamento de “Esquisse” no Brasil.

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