Representante dos Yanomami, Davi Kopenawa diz em Paris que já é tarde para conter mudanças climáticas

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Representantes Yanomami Davi e Dário Kopenawa estão em Paris para denunciar invasão de terras indígenas por garimpo ilegal
Representantes Yanomami Davi e Dário Kopenawa estão em Paris para denunciar invasão de terras indígenas por garimpo ilegal © Ana Carolina Peliz

Davi Kopenawa, uma das figuras mais importantes da luta dos povos Yanomami, diz que já não há mais tempo para salvar o mundo das mudanças climáticas. O xamã e seu filho, Dário Kopenawa, vieram a Paris para participar de uma conferência na Sorbonne e pressionar a comunidade internacional para que coopere com a proteção das terras dos povos indígenas no Brasil.

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“A gente veio aqui para contar o que está acontecendo sobre a violência, sobre o desmatamento da Amazônia, extração de ouro ilegal, exportação de madeira ilegal e outras ameaças dos direitos dos povos indígenas”, explicou Dário Kopenawa à RFI. “Eles (comunidade internacional) também estão apoiando este sistema e estamos cobrando para que parem de comprar ouro, por exemplo, de comprar madeira, porque as terras indígenas estão muito destruídas”, afirma o vice-presidente da Associação Hutukara Yanomami.

Desde 2019, os Yanomami cobram do governo brasileiro que retire mais de 20.000 garimpeiros ilegais de seu território, sem obter resposta. Enquanto isso, ataques de garimpeiros a indígenas se multiplicam. O último caso de violência foi divulgado no começo desta semana: dois indígenas da comunidade isolada Moxihatëtëma foram mortos por garimpeiros. A Associação Hutukara Yanomami acusa garimpeiros pelo crime.

Na capital francesa, os Kopenawa foram recebidos, na quinta-feira (4), pelo senador e vice-presidente do Partido da Esquerda Europeia (PGE), Pierre Laurent, que se comprometeu a encaminhar as denúncias dos indígenas ao embaixador da União Europeia em Brasília. No final da tarde, eles participaram de um encontro na fundação Frans Krajcberg, organizado pela ONG de defesa de direitos humanos Survival International.

Tarde demais

Em conferência na Universidade Sorbonne, na quarta-feia (3), eles falaram para um grupo de pesquisadores e estudantes. Os Kopenawa voltaram a denunciar a invasão das terras Yanomami por garimpeiros ilegais e o governo Bolsonaro, que “continua maltratando os indígenas e as comunidades que vivem na floresta”.

Pai e filho dizem não acreditar que os objetivos apresentados pelo governo brasileiro na COP26, de reduzir o desmatamento a zero em 2028, será cumprido.  “É mentira! Mentira no papel! Na minha avaliação Yanomami, isso não vai resolver nada, vai desmatar mais ainda”, disse Dário.

Já o xamã disse não acreditar que o mundo conseguirá curar ou minimizar as mudanças climáticas. “Já é tarde. Eles podem fazer sua reunião, podem gastar dinheiro, eu não acredito que isso resolva”.

Sobre a tese do marco temporal e a questão das demarcações das terras indígenas, Dário afirmou que “é  um projeto da bancada ruralista para acabar com os territórios indígenas, para priorizar grandes projetos de mineração, madeireiros ou de hidrelétricas”.

O representante dos Yanomami disse que apoiaria candidaturas de indígenas ao Congresso, desde que representem realmente problemáticas dos povos tradicionais nas próximas eleições, mas que seria necessário contar com o consenso da comunidade.

 

Os representantes dos indígenas Yanomami Davi e Dário Kopenawa foram recebidos na quinta-feira, em Paris, por senadores franceses e deputados do parlamento europeu.
Os representantes dos indígenas Yanomami Davi e Dário Kopenawa foram recebidos na quinta-feira, em Paris, por senadores franceses e deputados do parlamento europeu. © Ana Carolina Peliz

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