“O Brasil é um país que mata seu povo à bala ou de fome”, diz militante quilombola na França

Áudio 07:09
Katia Penha, coordenadora Nacional da CONAC e Eliete Paraguassu da Conceição, militante quilombola e líder comunitária da Ilha da Maré, Bahia.
Katia Penha, coordenadora Nacional da CONAC e Eliete Paraguassu da Conceição, militante quilombola e líder comunitária da Ilha da Maré, Bahia. © RFI

De passagem por Paris, após participação da COP 26, em Glasgow, na Escócia, Eliete Paraguassu da Conceição e Katia Penha são militantes quilombolas em defesa do planeta. Nesta entrevista à RFI Brasil, elas contam as agressões sofridas, especialmente pelos negros, no Brasil e tentam conscientizar empresários internacionais para o problema.  

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“Nós somos mais de 6.300 quilombos no Brasil. Foi muito importante para todas as comunidades quilombolas estarmos nas discussões do clima, em Glasgow, com diversos outros povos: indígenas, das florestas, do campo e das águas”, diz Katia Penha. “É muito importante porque somos nós que preservamos a biodiversidade no Brasil, principalmente na Amazônia”, acrescenta a coordenadora nacional da CONAC (Coordenação Nacional de Quilombos).

Líder comunitária da Ilha da Maré, em Salvador, na Bahia, Eliete se apresenta como “mulher das águas”. “Enquanto pescadora, sou produtora de alimentos. Para a gente é muito importante participar da Conferência do Clima, porque não tem como discutir mudanças climáticas sem falar dos povos originários, os guardiões desses territórios,” afirma.

“Enquanto mulher e moradora da baía de Todos os Santos, eu noto consequências gravíssimas, especialmente quanto à saúde das populações. Já existe pesquisa comprovada no Brasil que entre a população da Ilha de Maré, pessoas estão morrendo por causa do agrotóxico. Ou seja, o lixo tóxico é lançado nas águas que é a fonte de renda dessas populações”, denuncia. “A gente vem com a tarefa de denunciar o Brasil e dizer que o Brasil é racista e não enxerga esses povos como sujeito de direitos”, completa.

O objetivo da viagem é fazer com que o problema dos quilombolas entre na agenda de preocupações internacionais. “É preciso que o Brasil reconheça que existem as comunidades quilombolas na preservação do meio ambiente”, diz Katia Penha. “Nós estamos nos territórios rurais e urbanos. Estamos aqui para dizer que o Brasil é quilombola, que a Amazônia é quilombola e que todos os biomas são quilombolas. É claro que os índios são os originários, mas nós estamos junto com eles nesta permanente defesa da biodiversidade e destes territórios sagrados”, acrescenta.

Katia Penha, Coordenadora Nacional da CONAC (Coordenação Nacional de Quilombos).
Katia Penha, Coordenadora Nacional da CONAC (Coordenação Nacional de Quilombos). © RFI

Negros têm duas vezes mais chances de serem assassinados

As dificuldades que elas citam aparecem em relatórios como o Atlas da Violência 2021, que reúne os números de 2019. Segundo o documento, a taxa de homicídios por cem mil habitantes foi de 29,2 entre negros, enquanto a dos não negros foi de 11,2. Ou seja, os negros têm mais do que o dobro de chance de serem assassinados no Brasil, de acordo com o estudo feito em parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Ministério da Economia, e o Instituto Jones dos Santos e que tem por base dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, ambos do Ministério da Saúde.

“Sim, e a razão disso é porque existe desigualdade”, explica Katia Penha. “Na Bahia, houve assassinato de pessoas que queriam comer. Quando a gente fala que elas são assassinadas pela fome, esse índice entra. Quando um negro sai na rua e é confundido [com bandido] só porque ele é negro. Quando o negro está em algum espaço e é morto só porque ele é negro e porque não era para ele estar ali”, cita.

“Para a gente foi muito importante o Atlas da Violência, que apresenta dados que nós já gritávamos havia muitos anos”, completa Eliete. “Agora é importante que outros países que exploram o Brasil saibam, porque a gente é afetada por empresas brasileiras, como a Petrobras, mas também por empresas estrangeiras, que entram e não respeitam a nossa cultura e modo de vida”, alerta.

O racismo é um assunto que está em alta desde 2013, quando começou, nos Estados Unidos, o Movimento Black Lives Matter, após a morte a tiros do adolescente afro-americano Trayvon Martin. “No Brasil, nos apropriamos do racismo ambiental, mas passamos a ser vistos a partir de 2015 e 2016”, diz Eliete. “No Brasil, sofremos o mesmo racismo que outros países. Porém, no Brasil é bem pior. O Brasil é um país onde não existe justiça. O Brasil é um país que mata seu povo, quando não é na bala, é na fome”, lamenta. “O Brasil é um país que mata o povo preto, a cada minuto”, conclui

Eliete Paraguassu da Conceição, militante quilombola e líder comunitária da Ilha da Maré, em Salvador, na Bahia.
Eliete Paraguassu da Conceição, militante quilombola e líder comunitária da Ilha da Maré, em Salvador, na Bahia. © RFI

Em Paris, as ativistas têm encontros com organizações francesas de solidariedade internacional. “É para conclamar a todas as organizações internacionais que se juntem a nós para denunciar e fazer com que a nossa voz ecoe para o mundo. Estamos sofrendo pelo racismo institucional e estrutural do Estado brasileiro. E denunciar este governo que é genocida”, diz Katia Penha. “A gente quer construir uma sociedade mais justa e igualitária para todos os povos do campo, da floresta e das águas”, conclui.

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