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Linha Direta

Especialistas lamentam disputa política sobre vacina e alertam que Brasil vai conviver muito tempo com pandemia

Áudio 06:41
Campanha de vacinação contra a Covid-19 desencadeou uma batalha entre o governo federal e os governos estaduais.
Campanha de vacinação contra a Covid-19 desencadeou uma batalha entre o governo federal e os governos estaduais. REUTERS - AMANDA PEROBELLI
Por: Raquel Miura
13 min

Numa batalha eleitoral contra o governador de SP, o governo Bolsonaro se atrapalha em garantir programa de vacinação contra a Covid-19. Presidente fala em ‘finalzinho de pandemia’ e casos crescem em quase todos os estados brasileiros

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

O governo brasileiro, que minimizou toda a crise e não se preparou para a vacinação, agora corre contra o tempo para evitar a vergonha de não ter um programa nacional de imunização contra o coronavírus, já que apostou num acordo para compra de doses e repasse de tecnologia da vacina da AstraZenica/Oxford, que teve problemas de transparência e procedimento nos testes da terceira fase.

Com receio de que o governo federal continue patinando na questão, ao menos 12 estados e quase mil municípios entraram em contato com o governo paulista, que anunciou escala ampliada no Instituto Butantan a partir de agora: 24 horas por dia, de segunda a domingo, para dar conta da demanda pela Coronavac, numa parceira com fabricantes chineses.

Mudança de calendário

O vai e vem do discurso do governo federal, perdido em datas, previsões e sem apresentar um programa claro de vacinação mostra o estrago do jogo político e ideológico no combate ao coronavírus. Até hoje o presidente Jair Bolsonaro usa mais tempo para falar da cloroquina do que para explicar o que o governo tem feito para conseguir uma vacina. E, mesmo com o Brasil se aproximando de 180 mil mortos, alta de contaminados em 21 estados e no Distrito Federal e cenas diárias de pessoas aguardando vaga em UTI, o presidente afirmou que “estamos vivendo um finalzinho de pandemia”.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a falar em 60 dias para que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) certificasse os laboratórios interessados em fornecer o produto ao país, mas no dia seguinte afirmou que, a depender de um acordo em discussão, poderia iniciar a vacinação no fim deste ano. As tratativas são com a Pfizer, a mesma que já havia oferecido a vacina meses atrás e ouviu um "não" do governo Bolsonaro.

As contradições e a mudança de postura se intensificaram depois que o governador paulista João Dória prometeu iniciar a vacinação no fim de janeiro e já começou a produzir em solo brasileiro no Butantan a Coronavac, numa parceria com fabricantes chineses. Pressionado de todos os lados, inclusive por especialistas, o governo também teve de mudar o discurso com relação a essa vacina, cuja compra pelo Ministério da Saúde chegou a ser censurada pelo presidente Bolsonaro.

“A vacina da Pfizer e a do Butantan estão nas mesmas condições de negociação hoje para nós. Não é verdade que o governo tenha apostado apenas na vacina de Oxford. Todas aquelas com testes no Brasil estão no nosso radar”, afirmou o secretário executivo do ministério da Saúde, Élcio Franco.

“Não é hora de dividir o país, num momento em que todos passam por essa situação. E é o Ministério da Saúde quem dirige o programa nacional de imunização”, afirmou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, dirigindo críticas ao governador paulista.

“Todo brasileiro que estiver em solo paulista e quiser será vacinado. Não vamos exigir comprovante de residência, respeitamos todos os brasileiros. E vários governadores e prefeitos têm solicitado envio de vacinas diretamente conosco”, disse João Dória.

Pandemia até meados de 2021

Governadores, prefeitos e a população em geral pressionam o governo Bolsonaro a definir logo uma estratégia clara, com informações precisas de vacinação contra a Covid 19. No entanto, especialistas alertam que não isso não significará uma panaceia com resultados imediatos e que o Brasil ainda terá de conviver com a pandemia, com alta procura nos hospitais e alternâncias na curva de contaminação, pelo menos nos seis primeiros meses do ano que vem.

O médico Erico Arruda, da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que é preciso verificar como será a eficácia de proteção na prática, inclusive de vacinas que apresentaram resultados elevados na fase 3, como a da Pfizer, com resposta de 95%. Além disso  afirma que, embora crucial e urgente, a vacinação para grupos de risco, como idosos e indígenas, não segurará os números de casos.

“Imaginando que comecemos a vacinar as pessoas em fevereiro, mas que em larga escala isso só aconteça no segundo semestre, deveremos continuar durante todo o primeiro semestre todo o problema epidemiológico do coronavírus, surtos em cidades, em certas regiões. Isso por causa do tempo que vai se levar para vacinar a população em geral”.

A tão esperada vacina irá, assim, exigir também um esforço de convencimento da população de que ainda não é hora de afrouxar nos cuidados contra o vírus. “O início da vacinação pode levar a um relaxamento nas medidas de controle da doença, como o distanciamento social. Mas isso as autoridades, os especialistas deverão chamar a atenção da população”.

O médico também lamenta que em meio a números crescentes da doença no Brasil, a briga política escancarada entre Jair Bolsonaro e João Dória, possíveis rivais em 2022 contamine as negociações em torno da vacinação. “A politização acerca das questões de enfrentamento da doença é algo que nos deixa bastante perplexos, mas infelizmente os brasileiros estão se acostumando a isso. O último embate entre o ministro da Saúde e o governador de São Paulo é apenas mais uma triste e trágica faceta dessa situação”, disse Arruda.

Duas vezes contaminada

Em meio à discussão da vacina, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de reinfecção por coronavírus no Brasil. Foi uma profissional de saúde, de 37 anos, do Rio Grande do Norte que pegou a doença duas vezes, num intervalo de 120 dias. Exames laboratoriais mostraram uma diferença no sequenciamento genético do vírus entre os dois contágios, o que mostra que duas cepas distintas causaram a doença.

O infectologista Erico Arruda diz que é preciso analisar os resultados futuros, mas que provavelmente isso não reduzirá a eficácia das vacinas. “Vamos avaliar com ainda como isso se dará, mas é esperado que os anticorpos, produzidos a partir da vacina, sejam capaz de proteger, em sua maioria, as pessoas de uma contaminação com outra cepa”.

Pelo menos 58 casos possíveis de reinfecção por coronavírus estão em análise no país, mas especialistas dizem que, embora possíveis, casos assim até o momento aparentam ser raros.

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