Linha Direta

Em primeiro discurso no Congresso, Biden apresenta agenda audaciosa focada na classe média

Áudio 05:20
O presidente americano, Joe Biden, realizou nesta quarta-feira (28) seu primeiro discurso ao Congresso dos Estados Unidos, na véspera de completar 100 dias de governo.
O presidente americano, Joe Biden, realizou nesta quarta-feira (28) seu primeiro discurso ao Congresso dos Estados Unidos, na véspera de completar 100 dias de governo. REUTERS - POOL

Na véspera de completar 100 dias de governo, Joe Biden, 78 anos, fez nesta quarta-feira (28) seu primeiro discurso sobre o estado da nação, diante da uma sessão conjunta do Congresso americano.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Apesar de ser uma tradição presidencial, o primeiro pronunciamento de Biden apresentando ao Congresso sua visão para a nação teve alguns elementos inéditos, como a presença de duas mulheres posicionadas logo atrás do presidente durante o discurso: Kamala Harris e Nancy Pelosi ocuparam, respectivamente, as posições de vice-presidente e líder da Câmara de Representantes.

Por conta das restrições causadas pela pandemia, faltou o tradicional ambiente de comemoração e casa lotada. A Câmara, que já chegou a receber mais de 1.500 pessoas para o tradicional evento, dessa vez limitou a audiência a 200 pessoas para manter o distanciamento social.

Os republicanos acusaram os democratas de apresentarem "um teatro dramático" ao manterem o distanciamento social e usarem máscaras mesmo depois de o Centro para Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) ter flexibilizado as restrições sanitárias nesta semana.

As novas diretrizes determinam que pessoas que já receberam as duas doses das vacinas e completaram o período de imunização podem se reunir em pequenos grupos ao ar livre, sem distanciamento social ou máscaras.

Biden, aliás, não deixou de mencionar os avanços na luta contra a crise sanitária sem precedentes provocada pela pandemia de Covid-19. Na véspera da data em que completará os primeiros e simbólicos 100 dias de mandato, o presidente americano celebrou o sucesso da campanha de vacinação. Mais da metade da população adulta - 95,8 milhões de pessoas - já recebeu pelo menos uma das duas doses das vacinas que requerem duas aplicações.

"Depois de apenas 100 dias, posso relatar ao país: os Estados Unidos estão avançando novamente", declarou. O líder democrata também lembrou que herdou um país em crise, atingido pela pior recessão econômica desde a Grande Depressão.

Priorização da classe média

Biden tinha o objetivo de fazer um pronunciamento unificador para uma população extremamente diversa, tanto em termos de origens sociais e étnicas, quanto em termos de visão para o rumo que o país deve tomar.

O presidente democrata botou sua experiência de 40 anos em Washington em prática e conseguiu encontrar um equilíbrio ao focar bastante em criação de empregos para a classe média, assistência à saúde e educação superior acessível a todos, ao mesmo tempo em que, ao longo de pouco mais de uma hora, apresentava uma agenda audaciosa.

Biden está ciente de que precisa agradar a ala progressista do seu partido, que foi essencial para sua eleição, mesmo depois de um fraco desempenho nas primárias democratas.

Apesar de ser da geração de Bill Clinton – que no seu célebre pronunciamento sobre o estado da união, em 1996, disse que a era do 'big government' tinha chegado ao fim – Biden anunciou a volta do 'big government .

O chefe da Casa Branca apresentou diversos incentivos, como programas sociais e benefícios trabalhistas, além de a promessa de uma remuneração mínima de US$ 15 por hora.

Mudanças climáticas e racismo sistêmico

O presidente dedicou boa parte do discurso às mudanças climáticas e como essa questão pode também significar mais empregos e vantagem competitiva.

Segundo ele, os Estados Unidos devem dominar o mercado e o setor de carros elétricos. Para isso, disse que é preciso trabalhar para que o centro da manufatura de peças para novas tecnologias seja Pittsburgh, e não Pequim. 

Biden também falou sobre a necessidade de acabar com o racismo sistêmico, principalmente no sistema de justiça criminal, além de o Congresso precisar se empenhar para criar mais proteções para grupos de minoria e maior controle de armas.

Para acalmar republicanos e grande parte da população em geral, o presidente frisou que isso não significa acabar com o 2º artigo da Constituição, que garante o direito de manter ou carregar armas.

Apesar de falar sobre a necessidade de finalmente ser feita a reforma da imigração, Biden não mencionou a atual crise na fronteira com o México. A América Latina, aliás, como é de costume em Washington, foi mais uma vez ignorada.

Quanto à política externa, Biden revelou que tem conversado muito com Xi Jinping e fez questão de dizer que tem sido bastante duro tanto com o líder chinês, quanto com Vladimir Putin.

Biden declarou que advertiu os líderes da China e da Rússia de que os Estados Unidos continuarão com presença militar forte em âmbito global, não para criar conflitos, mas para evitar conflitos globais. No entanto, o presidente democrata também disse que está na hora das tropas americanas, que já estão há duas décadas no Afeganistão, finalmente voltarem para casa.

Críticas dos republicanos

Os republicanos em Washington, é claro, estão dizendo que Biden apresentou uma agenda extremamente radical, que pode acabar com o país. Eles também se preocupam sobre como os planos de Biden, que devem custar de trilhões de dólares, serão financiados.

“Biden está desencorajando a capacidade produtiva. Ele é oportunista e está cansado de ser pano de fundo para Barack Obama. Ele quer ser melhor que Obama”, diz o historiador Victor Davis Hanson, que acredita que o novo presidente tem a agenda mais radical já apresentada pela Casa Branca.

Os analistas estão aliviados de finalmente conseguirem identificar um plano de política externa da Casa Branca coerente. “Com o discurso de Joe Biden para o Congresso é a primeira vez em quatro anos que as pessoas que focam em política externa e segurança nacional prestaram atenção a um pronunciamento presidencial. Ele tem uma política externa reconhecível, uma declaração de princípios sobre democracia e o papel dos Estados Unidos como líder global, e de uma Casa Branca em funcionamento que parece se importar com o engajamento com o resto do mundo”, analisou Tom Nichols, acadêmico especialista em relações internacionais.

De modo geral, os americanos parecem estar razoavelmente satisfeitos com uma presidência até agora sem sobressaltos. O pronunciamento desta quarta serviu para confirmar essa ideia, com um discurso de tom ponderado. Mas a narrativa de Biden não será aceita se a evocada volta do "big governement" resultar no aumento do custo de vida, impostos mais altos e falta de dinamismo na economia.

Biden garantiu que somente os americanos com renda anual acima de US$ 400 mil e corporações teriam de pagar impostos mais altos. Mas essa proposta é vista com desconfiança, pois pode acabar pesando no bolso da população. Se isso acontecer, os republicanos podem voltar a ter a maioria no Senado e talvez até na Câmara dos Representantes nas eleições de 2022.

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