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Bashar Al-Assad é a única opção para evitar dissolução da Síria, diz especialista em Oriente Médio

Áudio 07:07
Bandeira com imagem do presidente sírio Bashar Al-Assad, na entrada de uma cidade do noroeste do país.
Bandeira com imagem do presidente sírio Bashar Al-Assad, na entrada de uma cidade do noroeste do país. REUTERS - OMAR SANADIKI

O conflito na Síria, que dura mais de dez anos, já deixou quase meio milhão de mortos, segundo relatório publicado na terça-feira (1) pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos. Ofuscada principalmente pela pandemia, a guerra na Síria continua mobilizando os principais atores envolvidos, diz Youssef Alvarenga Cherem, professor da Universidade Federal de São Paulo e especialista em Oriente Médio.

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O anúncio de que 494.438 pesssoas já morreram desde o início do conflito, em março de 2011, teve uma repercussão limitada, comparada com outros períodos em que a guerra desencadeada para reprimir manifestantes prٌó-democracia em Damasco suscitava revolta e mobilizava a comunidade internacional. O balanço foi divulgado dias após o presidente Bashar Al-Assad vencer as eleições para um quarto mandato consecutivo à frente do país.

Youssef Alvarenga vê dois motivos principais para a situação síria ter saído do foco das preocupações internacionais, sendo um deles a crise sanitária mundial. "A pandemia tirou completamente o problema do radar, a não ser em casos excepcionais, como o recente conflito entre Israel e os palestinos de Gaza. Os problemas dos países ficam em segundo plano", destaca o professor.

Além da pandemia, atualmente no centro das preocupações dos líderes mundiais, outro fator que justificaria o aparente desinteresse é a perda de quase a totalidade do território que o grupo Estado Islâmico tinha na Síria e também no Iraque.

Desde 2015, o governo de Al-Assad vem acumulando vitórias contra os jihadistas e os opositores, que cataloga como "terroristas", e já voltou a controlar dois terços do territórios do país, com a ajuda principalmente da Rússia e Irã,

"Grande parte do apoio tanto para os rebeldes quanto para o governo sírio era para conter essa ameaça, o maior problema que causava para os países ocidentais", afirma Youssef.

No entanto, o pesquisador pondera que a perda de visibilidade é aparente porque os países envolvidos diretamente no conflito sٌírio têm muitos interesses, sejam políticos, econômicos ou geopolíticos. 

"Quem ganhou no cenário geopolítico são os atores principais, a Rússia, que tem uma justificativa para uma presença militar ostenstiva no Mar Mediterrâneo e no próprio território sírio, o Irã, que precisa de uma legitimação e um ponto de apoio contra Israel e por consequência contra o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, e o Hezbollah libanês, que só cresce e se tornou um ator político fundamental sem o qual o governo do Líbano, com aquela complexidade toda, não funciona", afirma.

Youssef Alvarenga Cherem é professor da Universidade Federal de São Paulo e especialista em Oriente Médio.
Youssef Alvarenga Cherem é professor da Universidade Federal de São Paulo e especialista em Oriente Médio. © Arquivo Pessoal

Al Assad tem apoio para permanecer no cargo

Bashar Al-Assad, que chegou ao poder em 2000, foi eleito no final de maio para um mandato de mais sete anos. Ele obteve cerca de 95% dos votos em uma eleição "de fachada", segundo Youssef Cherem, e se comprometeu com a reconstrução de um país em frangalhos.

Além de arruinada por mais de uma década de confrontos, a Síria tem uma economia fragilizada com uma forte desvalorização da moeda frente ao dólar e cerca de 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, segundo a ONU.  Apesar da falta de uma base ampla de apoio, Bashar Al-Assad tem sustentação ancorada na elite econômica do país e também de países estrangeiros.

"Ele só está lá até hoje por causa dos apoios internos e porque, para as potências regionais, Israel, Irã, os países árabes do Golfo, inclusive a Turquia, ele é a opção ‘por default’, para não ter algo pior. E o que seria esse algo pior ? Seria a fragmentação do Estado sírio, o risco de ele se dissolver", afirma Youssef Cherem.  

Diante do cenário interno e externo, não há perspectiva a curto prazo de ver Bashar Al-Assad longe do poder, assegura o professor da Universidade Federal de São Paulo. "Ele é a única opção para todo mundo. É impensável que tenha uma mudança democrática agora. A conjuntura não é favorável, tanto no plano regional e internacional. A oposição, ou está presa, morreu, ou faz parte desses milhões de refugiados que não vão e nem querem voltar para lá de jeito nenhum. Não tem jeito de pensar aquilo lá sem ele", conclui.

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