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América Latina: Biden deve trocar as ameaças de Trump por pressão diplomática e as relações pessoais pelas institucionais

Áudio 05:02
Sai Donald Trump, entra Joe Biden.
Sai Donald Trump, entra Joe Biden. © AFP
Por: Márcio Resende
15 min

Mudança no tom, na forma e na abordagem fará de líderes como o brasileiro Jair Bolsonaro e o mexicano Andrés Manuel López Obrador perdedores, mas não necessariamente o Brasil e o México como países. Os desafios principais na região serão México, imigração e corrupção na América Central e uma negociação de abertura com Cuba que envolva a redemocratização da Venezuela. Os Estados Unidos devem voltar à região da qual se ausentaram com Trump, permitindo que a China ganhasse terreno.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

A política externa dos Estados Unidos deve mudar na forma e no enfoque e essas mudanças devem ser sentidas nos países do continente americano, especialmente em países como Brasil, México, Guatemala, Honduras, El Salvador, Cuba e Venezuela em questões como meio-ambiente, imigração, drogas, corrupção e democracia. O pós-pandemia e o processo de vacinação podem ser ainda duas ferramentas com as quais os Estados Unidos voltariam a ocupar o espaço que Donald Trump deixou vazio na região.

O tom ríspido de ameaças até mesmo bélicas de Donald Trump deve dar lugar a um tom de compreensão associado a uma diplomacia de persuasão. Saem de cena os muros e aparecem estratégias de prêmios e castigos.

Acabam-se as ameaças de intervenção militar na Venezuela, de estrangulamento econômico em Cuba, de um muro no México ou de corte de ajuda financeira a Guatemala, Honduras e El Salvador.

Perdem Bolsonaro e López Obrador

Esse novo enfoque deve priorizar consensos, transformando as relações, antes pessoais com Donald Trump, em relações baseadas na institucionalidade com Joe Biden. Devem pesar menos os líderes e as ideologias e mais a democracia e as instituições republicanas.

"A principal mudança nos Estados Unidos será que Joe Biden passa a dar poder às relações institucionais. Para a América Latina, isso significa que aqueles líderes que tinham relações mais pessoais com Donald Trump são os governos que perdem. Aqueles governos que tinham relações mais institucionais com os Estados Unidos do que pessoal com Trump serão os governos que ganham", indica à RFI o sociólogo e cientista político chileno, Patricio Navia.

Metade do ano como professor na chilena Universidade de Diego Portales e metade na norte-americana New York University fazem de Patricio Navia um dos maiores especialistas na relação Estados Unidos-América Latina.

"Perdem os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e o mexicano, Andrés Manuel López Obrador que mantiveram uma relação pessoal próxima de Trump. Ganha, por exemplo, a Colômbia que manteve uma forte relação institucional com os Estados Unidos", diferencia Navia.

"Os presidentes controvertidos são mais parecidos com o estilo de Donald Trump do que de Biden em termos de concepção da democracia e do papel das suas instituições. Esses são Bolsonaro e López Obrador. Com a Colômbia, há vínculos de uma aliança histórica", explica à RFI o cientista político argentino, Sergio Berensztein, formado em Buenos Aires e na Carolina do Norte, professor convidado nas universidades norte-americanas de Duke, Georgetown, Stanford, Princeton e Novo México.

"Apesar de Bolsonaro, os militares brasileiros estão interessados em continuar a manter um vínculo privilegiado com os militares norte-americanos. Será preciso ver como as opiniões e o comportamento de Bolsonaro têm efeito nesse vínculo", observa Berensztein.

Brasil e México mantém peso gravitacional

Bolsonaro e López Obrador perdem, mas não necessariamente o Brasil e o México. Os dois países, devido à sua importância na América Latina, serão sempre importantes.

"Para os Estados Unidos, sempre é importante ter boas relações com o México, seu vizinho, e sempre é importante melhorar as relações com o Brasil, o maior país da região. O México é fundamental em assuntos como comércio, imigração e tráfico de drogas. Já o Brasil será sempre fundamental se os Estados Unidos quiserem avançar com alguma iniciativa na América do Sul", aponta Navia.

A política de meio-ambiente de Joe Biden deve ser usada como ferramenta para castigar tanto Bolsonaro quanto López Obrador. Os Estados Unidos retornarão ao Acordo Climático de Paris. A preservação da Amazônia pelo lado brasileiro e a adoção das energias renováveis pelo lado mexicano são pontos que se diferenciam de Donald Trump que, ao não acreditar no aquecimento global, não procurou conter a destruição da floresta no Brasil e incentivou o uso dos combustíveis fósseis no México.

"O que Biden vai fazer é castigar Bolsonaro, mas manter uma relação próxima com o Brasil. Provavelmente, para isso, use a política de meio-ambiente como a área na qual pode isolar e pressionar Bolsonaro, ao mesmo tempo em que constrói uma relação institucional com o Brasil", prevê Navia.

Os desafios de Biden na América Latina

Para Patricio Navia, os desafios de Biden são três classificados por países: 1) México, 2) países da América Central e 3) Cuba com Venezuela.

Para Sergio Berensztein, os desafios também são três, mas divididos por assuntos: 1) Processo Migratório, 2) A ligação entre Segurança, Tráfico de Drogas, Lavagem de Dinheiro e Terrorismo.

"O mais importante para os Estados Unidos na relação com a América Latina é a sua relação particular com o México porque envolve a fronteira por onde passam investimentos, comércio, imigrantes e drogas. Os Estados Unidos precisam ter uma boa relação com o México", afirma Patricio Navia.

Sem mais muros

O segundo desafio são os países da América Central, especialmente Guatemala, Honduras e El Salvador de onde partem as ondas de imigrantes que atravessam todo o México até a fronteira.

"Com exceção de Costa Rica e Panamá, os países da América Central não estão funcionando bem. Os Estados Unidos precisam que funcionem bem para que menos gente queira emigrar. Para isso, precisam combater a corrupção e fortalecer a democracia nesses países, mas também ajudar que haja desenvolvimento econômico nessa região", considera Navia.

O novo presidente já anunciou um programa de assistência de US$ 4 bilhões a serem investidos nessa região.

Também deve mudar a abordagem. Os Estados Unidos não vão abrir a fronteira, mas não vão levantar um muro. Devem dar um tratamento mais humano e um enfoque mais ágil para quem imigrar, mas legalmente.

"Com Trump, as fronteiras foram fechadas. Isso vai mudar. Essa abertura pode gerar correntes migratórias com os conflitos que o fenômeno traz. O foco é a América Central, mas a questão migratória reverbera em toda a América Latina e Caribe", diz Berensztein.

Democracia em Cuba e Venezuela

O terceiro desafio é a abertura de Cuba e a restauração da democracia na Venezuela. A ameaça de uma intervenção militar deve ceder espaço a sanções com um enfoque inteligente. A confrontação aberta deve-se tornar pressão diplomática, através de instrumentos de prêmios e castigos.

Os dois analistas veem que a negociação com o regime de Nicolás Maduro precise passar por Cuba porque um regime sustenta o outro. Ao mesmo tempo, Cuba também será um objetivo de Joe Biden, ciente de que a tímida abertura negociada com Barack Obama fracassou não apenas pelo giro que significou Trump, mas porque Cuba não cumpriu com a sua parte.

"Venezuela e Cuba são dois assuntos associados. Os Estados Unidos podem colocar na mesa de negociação que, para as boas relações com Cuba, haja uma contrapartida na Venezuela para uma transição a um sistema mais democrático. Para solucionar a Venezuela, é preciso passar por Cuba", garante Navia.

"Em algum ponto, a negociação com Cuba vai terminar vinculada com a Venezuela. A negociação sobre a Venezuela deve acontecer em Cuba", concorda Berensztein.

Daquela negociação entre os governos de Barack Obama e Raúl Castro, ficou a falta de credibilidade de tudo ter-se alterado no governo seguinte.

"Conversei com legisladores norte-americanos sobre esse assunto. Eles são conscientes de que precisam de uma comissão bipartidária de democratas e republicanos para poder gerar credibilidade do lado cubano", revela Sergio Berensztein.

Já no caso venezuelano, o analista prevê uma pressão de investigações contra Nicolás Maduro.

"Provavelmente, vejamos o Departamento de Justiça avançando com investigações contra Maduro. Virá uma questão legal complicada", aposta.

O pós-pandemia e a vacinação

A América Latina tem sido castigada pela pandemia por duas vias: sistemas de saúde frágeis e as economias sem fôlego para aguentar uma segunda onda. A região vai sair mais endividada e com mais déficit fiscal. Além disso, muitos países da região não têm acesso às vacinas ou por falta de dinheiro ou por falta de opção.

A Rússia e a China, com as suas vacinas, têm ocupado um vácuo deixado pela administração de Donald Trump, que abandonou a região para se concentrar nas prioridades domésticas.

Há muito espaço para que Biden recupere a proximidade com a América Latina, depois do abandono de Trump", acredita Navia.

Joe Biden pode fortalecer os organismos multilaterais de crédito (Fundo Monetário Internacional, Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Mundial) e facilitar o acesso ao financiamento para recuperar as economias na região.

Pode ainda criar um programa de cooperação para acesso às vacinas de laboratórios norte-americanos como Moderna, Pfizer e Johnson & Johnson.

"Especialmente a vacina da Johnson & Johnson porque é mais barata e de mais fácil logística. Os Estados Unidos até podem produzir essas vacinas no Brasil que tem capacidade de produção e depois distribuir gratuitamente nos países da América Central sem dinheiro nem acesso", avalia Patricio Navia.

"China e Rússia são as vacinas às quais a América Latina tem acesso agora. Existe chance de uma diplomacia sanitária dos Estados Unidos com a região", acrescenta Sergio Berensztein.

Mas a vizinhança virá sempre depois da prioridade doméstica de vacinar 100 milhões de americanos nos três primeiros meses do governo Biden.

 

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