Linha Direta

Biden tenta reposicionar os EUA no centro da luta contra as mudanças climáticas

Áudio 05:03
A expectativa da cúpula organizada pela Casa Branca é que o presidente Joe Biden consiga aumentar as metas de redução  de gases de efeito estufa.
A expectativa da cúpula organizada pela Casa Branca é que o presidente Joe Biden consiga aumentar as metas de redução de gases de efeito estufa. Brendan Smialowski AFP

Começa nesta quinta-feira (22) a cúpula climática virtual de dois dias organizada pelo presidente americano, Joe Biden, com a participação de 40 chefes de Estado e de governo. O evento, que serve para anunciar a volta de Washington à linha de frente do debate climático global, acontece em meio a uma crescente animosidade entre a Casa Branca, a Rússia e a China. 

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Durante o evento, as atenções em Washington estarão voltadas para possíveis trocas entre os líderes americano, chinês e russo em questões não relacionadas às mudanças climáticas. O Departamento de Estado americano diz que o foco das discussões será o clima e a cooperação entre nações, mesmo que algumas sejam adversárias dos interesses americanos. O combate ao aquecimento global se apresenta, pelo menos, como uma área de interesse mútuo.

A cúpula acontece em um momento em que a Casa Branca está atenta ao fato de que a Rússia, e talvez também a Turquia, possam vir a restringir o acesso a navios de guerra americanos ou a seus aliados em áreas do Mar Negro. As relações dos Estados Unidos com a Turquia estão, aliás, prestes a piorar. Nos próximos dias, Biden vai declarar formalmente que o massacre de armênios no início do século 20 foi um genocídio.

O presidente democrata terá de contar com a cooperação de três rivais para ter sucesso em seu audacioso plano climático: Xi Jinping, Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan. Isso não será uma tarefa fácil, mesmo para um político experiente como Biden. O presidente chinês já tem previsto um encontro privado com o líder americano durante a cúpula. Xi não deve ser o único chefe de Estado interessado em discussões privadas nos bastidores desse evento.

Brasil: repreensão a Bolsonaro ou status quo?

Durante a campanha presidencial, Biden não poupou críticas às políticas de meio ambiente e desmatamento do governo de Jair Bolsonaro. Nos últimos dias, ativistas, além de 15 senadores americanos, pediram ao democrata que não conclua um acordo com o Brasil. Mas o tom da Casa Branca é agora bem mais conciliador, dizendo que respeita a soberania brasileira ao lidar com desafios ambientais. O Brasil é visto como um parceiro-chave para abrir o caminho a fim de que seja atingida a meta global líquida de zero emissões de carbono até 2050.

John Kerry, "o czar" do clima do governo Biden, tuitou que esperava ver ações mais concretas por parte do Brasil, mas mesmo essa exigência foi muito vaga. O fato é que, historicamente, não importa quem ocupe a Casa Branca ou o Planalto, pouco muda nas relações entre as duas maiores economias da região. O Brasil sempre acaba ficando no banco de trás, pois Washington tem mais interesse em dar atenção – seja positiva ou negativa – a outras nações. 

Iniciativas dos EUA

Biden vai apresentar duas iniciativas importantes, incluindo um plano nacional de redução agressiva de emissões, além de uma ordem executiva para pressionar todas as agências federais a divulgarem os riscos climáticos que enfrentam, com o objetivo de reduzi-los. A Casa Branca também espera conseguir que os maiores emissores do mundo se comprometam com a meta de zero carbono até 2050. Os quatro maiores poluidores são a China, os Estados Unidos, a União Europeia e a Índia. 

Acima de tudo, a Casa Branca fará o possível para reapresentar os Estados Unidos como o líder mundial em mudança climática. O país deu um passo para trás durante o governo de Donald Trump, mas isso acabou resultando em uma liderança climática mais pronunciada do Congresso americano, o que proporciona um ambiente propício a iniciativas para preservação do meio ambiente. 

Biden conta com a simpatia de vários líderes mundiais que o conhecem há bastante tempo. Assim, ele deve conseguir, pelo menos no papel, um compromisso climático significativo entre as nações. O grande desafio será manter esse compromisso, tendo em vista as disputas geopolíticas e comerciais – especialmente entre os Estados Unidos e a China – que não se limitam a essas duas nações e se desenvolvem atualmente em grande escala.

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