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"Bolsonaro radicaliza base com frases de efeito, mas se isola sem Trump", diz cientista político

Áudio 07:00
Gaspard Estrada, cientista político do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po).
Gaspard Estrada, cientista político do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). © Camille Lebourges
Por: Maria Paula Carvalho
16 min

Enquanto muitas nações já parabenizaram o presidente eleito dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil adota prudência, preferindo aguardar o resultado dos recursos feitos por Donald Trump sobre os resultados eleitorais. Ao mesmo tempo, o presidente Jair Bolsonaro continua chamando atenção do mundo por suas frases de efeito. A RFI entrevistou o cientista político Gaspard Estrada, da universidade Sciences Po, de Paris, para analisar o peso político das reações do governo brasileiro no plano internacional. 

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Líderes mundiais como o presidente francês, Emmanuel Macron, a chanceler alemã, Angela Merkel e o premiê britânico, Boris Johnson, já enviaram seus cumprimentos aquele que deverá ocupar a Casa Branca a partir de 2021. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, no entanto, espera a proclamação dos resultados oficiais. Um silêncio que fala por si só, na opinião do diretor-executivo do Observatório da América Latina e do Caribe da universidade Science Po.

“Esta situação é a tradução de um crescente isolamento internacional do Brasil no mundo. Com a chegada de Bolsonaro, em 2019, a nova política do governo brasileiro foi de apostar tudo nesta relação familiar entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. E de fazer desta submissão unilateral do Brasil aos Estados Unidos o eixo fundamental da política externa brasileira”, analisa Gaspard Estrada.

Porém, “com a saída de Donald Trump do poder, essa estratégia fica sem rumo. E é difícil saber como Bolsonaro vai se posicionar, pois toda essa estratégia visava a atender um público interno no Brasil, de mobilizar pessoas e usar isso como um discurso para o governo”, completa.

“O trumpismo vai se manter porque a base do partido Republicano entrou de vez no discurso de Donald Trump. Porém, Trump não estará mais no governo e Bolsonaro vai ter de lidar com o governo Joe Biden. Mas como toda a estratégia estava baseada nesse eixo familiar, a grande pergunta é como o governo americano vai se relacionar com o governo brasileiro?”, questiona.

“Não podemos esquecer que, embora os assuntos internacionais tenham tido pouco espaço na campanha americana, o único país citado nos debates presidenciais foi o Brasil, mas não por uma boa razão, e sim por causa do clima e do meio ambiente. Então, eu acho que pode haver sim um distanciamento entre o Brasil e os Estados Unidos por causa disso”, acredita o Diretor executivo do Observatório da América Latina e do Caribe de Science Po.

Frases de efeito

Em evento recente para destacar a importância do turismo no Brasil, após uma queda das visitações por conta da epidemia de Covid-19 que já matou mais de 163.000 pessoas no país, e sem citar o nome de Joe Biden, Bolsonaro disse que “quando acaba a saliva tem que ter pólvora”. A frase foi dita dentro de um contexto em que o novo ocupante da Casa Branca exigiria o fim das queimadas e o desmatamento na Amazônia.

“Novamente Bolsonaro faz o que sempre fez desde que chegou ao Planalto: radicalizar a sua base, usar frases de efeito cada vez mais grotescas para mobilizar e dominar a pauta do dia e poder fazer com que a atenção seja desviada de outros assuntos mais embaraçosos para o governo”, diz Estrada.

Declarações recentes feitas pelo presidente brasileiro sobre a pandemia de Covid-19 também suscitaram reações na imprensa internacional. Jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão de vários países repercutiram a maneira como o chefe de Estado minimizou as consequências da crise sanitária, quando usou a expressão “tem que deixar de ser um país de maricas”.

“Essa é mais uma frase infeliz do presidente Bolsonaro para tentar desviar atenção para o que interessa, provocando gratuitamente a população. Mas o problema dessa estratégia é que o rendimento marginal dessas declarações é decrescente. A cada nova declaração, para ter impacto, ele tem que subir mais um degrau na sua loucura”, afirma o cientista político.

“Quando Donald Trump tinha uma perspectiva de poder, era mais fácil para Bolsonaro fazer esse tipo de declaração. Agora ele vai ficar sozinho, pois os aliados dele no cenário internacional sumiram, como o [Matteo] Salvini e agora o Trump. Então, é claro que nessa configuração o Brasil vai ter mais dificuldade para se inserir no quadro internacional,” diz.

De acordo com o pesquisador, o perfil combativo do governo brasileiro pode se desgastar a longo prazo. “No cenário internacional, acho que Bolsonaro está ficando numa situação complicada. A Europa não quer ouvir falar dele, os Estados Unidos entrarão numa nova dinâmica com o governo brasileiro e a China, que é o principal parceiro comercial do país, tem conflitos permanentes com o governo Bolsonaro. Nesse contexto, o cenário não é positivo”, observa.  

Perda de soft power

Depois de ter sido considerado o “campeão dos emergentes” aos olhos do mundo, há cerca de uma década, o Brasil agora precisa lidar com diversas crises ao mesmo tempo. As dificuldades nas áreas sanitária, econômica e social refletem na imagem do país e podem enfraquecer o seu potencial de ação em escala global.

“O Brasil está em declínio no cenário internacional e isso não é de ontem, não vem de Bolsonaro. Eu acho que desde o governo Dilma Rousseff o Brasil vem perdendo espaço no cenário internacional”, explica o cientista político Gaspard Estrada. “Primeiro, pelo desinteresse da ex-presidente pelos assuntos internacionais; em segundo lugar, pelas condições contestáveis da chegada de Michel Temer ao poder e, agora, Jair Bolsonaro rompeu com o que era a força da diplomacia brasileira, que era o soft power brasileiro, e com a aposta pelo multilateralismo, que sempre foi levada adiante, seja nos governos da democracia ou na ditadura”, afirma.

Desde junho de 2019, Brasil e União Europeia vivem a expectativa de um acordo de livre comércio, que foi comemorado pelos produtores brasileiros e provocou críticas do agronegócio europeu, em razão de normas ambientais para a produção. Esse é outro desafio para a diplomacia brasileira que, de acordo com o pesquisador de Sciences Po, tem mudado ao longo do tempo.

“O Brasil sempre defendeu o multilateralismo como um instrumento para o país ter peso no cenário internacional. Na diplomacia do clima, por exemplo, o Brasil tinha muita credibilidade, desde a cúpula da Rio 1992 até a COP 21, em 2015, quando foi um ator fundamental. Enfim, o Brasil tinha essa capacidade política de influência. Hoje, isso está se perdendo por causa das políticas de Bolsonaro e essa fragilização da política externa brasileira está ficando evidente aos olhos do mundo”, aponta Estrada.

“O governo Bolsonaro destrói, mas não cria políticas”, lamenta. “Um fato interessante é que o governo Bolsonaro não tem uma marca. [Fernando Henrique] Cardoso, quando foi ministro da Fazenda, se notabilizou pela queda da inflação e depois pela reestruturação do Estado, quando foi presidente. Os governos de Lula foram caracterizados pelo crescimento econômico e inclusão social. E Bolsonaro não tem uma política, mas sim uma estratégia de destruição”, destaca.

Auxílio emergencial e eleições

Em artigo recente assinado para o jornal The New York Times, Gaspard Estrada analisa medidas recentes aprovadas no atual governo brasileiro. “O que eu digo é que a reforma previdenciária não foi uma inspiração do governo Bolsonaro. Quem levou adiante essa reforma foi o próprio Congresso Nacional, em particular o presidente da Câmara, Rodrigo Maia”, continua Estrada.

“É uma situação muito paradoxal, em que Bolsonaro consegue faturar sobre coisas que ele nem criou e nem desejava criar. O auxílio emergencial inicialmente proposto pelo governo era de R$ 200 e a oposição sugeriu aumentar o valor. Agora, com os créditos eleitorais disso, o governo tenta manter este apoio que, do ponto de vista das finanças públicas, é insustentável”, acrescenta.

“Estamos entrando num momento complicado para o governo Bolsonaro. Teremos eleição para a presidência da Câmara, em fevereiro de 2021 e está claro que o presidente, até hoje, não conseguiu estabilizar a sua base política no Congresso. Há um racha entre Rodrigo Maia e o PP e não sabemos como isso vai estar em fevereiro”, analisa.

“Por outro lado, no plano econômico, o auxílio emergencial não poderá ser mantido e o governo terá de fazer escolhas. Só que, até hoje, em termos de políticas públicas, Bolsonaro nunca fez escolhas. E ele terá de tomar uma decisão difícil. Eu acho que o ano que vem será complicado e já estamos vendo os reflexos disso, pois os candidatos [para a eleição municipal] apoiados por Bolsonaro não estão indo bem nas pesquisas eleitorais, especialmente nas grandes cidades como São Paulo”, conclui.  

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