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“É impossível não sentirmos algum tipo de transtorno com essa pandemia”, diz psicoterapeuta brasileiro em Londres

Áudio 06:52
O psicoterapeuta Allan Gois alerta que o terceiro lockdown no Reino Unido deve agravar os casos de ansiedade e depressão.
O psicoterapeuta Allan Gois alerta que o terceiro lockdown no Reino Unido deve agravar os casos de ansiedade e depressão. © Arquivo Pessoal
Por: Elcio Ramalho
12 min

O novo lockdown anunciado no início do ano pelo governo britânico para conter a propagação do coronavírus, o terceiro desde o início da pandemia, deve agravar os sintomas psíquicos que as medidas de restrição têm provocado na população, segundo o psicoterapeuta brasileiro Allan Gois, que vive e trabalha em Londres. 

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“Temos visto impactos muito grandes de ansiedade e depressão, em pessoas que nunca tinham experimentado problemas de saúde mental. Esse terceiro lockdown, completamente necessário, vai ter um impacto muito grande em todos nós”, avalia o especialista, que também teve que se adaptar às novas regras e atende seus pacientes por meio de consultas virtuais.  

“É normal todos nós estarmos vivenciando um certo grau de angústia, tristeza, de preocupação, frustração, medo e raiva. Não tem nada de normal no que as pessoas estão chamando de ‘novo normal’. Não há nada de normal e não devemos normalizar porque é uma situação extremamente ‘transtornante’. Um novo lockdown exacerba essa sensação de medo e insegurança que já vinha acontecendo”, constata o profissional.

Segundo eles, estudos já vem comprovando cientificamente este impacto na população. Pesquisadores já constataram que distúrbios como ansiedade e depressão são claramente identificados como os problemas mais sérios relacionados aos efeitos da pandemia na saúde mental.

“Ainda nos resta saber o impacto a médio e longo prazo. Mas este terceiro lockdown vai piorar bastante a nossa situação porque não é uma circunstância apenas na questão mental, mas engloba outras esferas, como o isolamento social, solidão, e muitas perdas. Parece que o que vivemos foi há décadas, mas foram apenas 10 meses, ou menos”, avalia. 

Pesquisas já realizadas sobre os efeitos da pandemia na saúde mental indicam que estatisticamente as mulheres e os jovens são os que mais sofrem com as medidas restritivas adotadas pelas autoridades. No entanto, é preciso levar em consideração as circunstâncias particulares para compreender as reações de cada um, temporiza Allan Gois. 

“Uma coisa é eu imaginar como eu sou impactado, na minha casa, tendo um lugar para continuar trabalhando, com minha família em outros cômodos. Eu tenho minhas circunstâncias que são completamente diferentes de quem vive em um quarto pequeno, como acontece muito aqui na Europa, ou dentro de uma favela no Brasil. As pessoas também estão dentro de um contexto social, como a pobreza, o que as deixam mais vulneráveis também ao que está acontecendo”, explica.

O que fazer? 

No entanto, há mecanismos para aliviar essas tensões e não deixar evoluir para distúrbios mais graves. “Os conselhos mais práticos são o de tentar sair, se exercitar, se conectar com as pessoas, mesmo de forma remota. Quando for preciso, buscar ajuda em amigos, em familiares, nos médicos e no sistema de saúde. E claro, para quem pode, buscar uma terapia”, indica.

Apesar dessas dicas, o especialista alerta que é impossível dentro do contexto atual deixar de sentir algum desconforto psicológico. “Nada disso evitar um certo tipo de transtorno ou dificuldade”. 

Desde a pandemia, Allan Gois viu a clientela de seu consultório recorrer com mais frequência a sessões. Formado no Brasil e com especialização no Reino Unido, ele atende pacientes ingleses, brasileiros e latino-americanos residentes no país.

A falta de visibilidade de quando a pandemia vai ter um fim, agrava os sintomas, segundo ele. Por isso, o melhor é adotar um comportamento que possa reverter esse cenário. “É preciso colocar em outra perspectiva e pensar que vai passar", afirma. 

"Historicamente, outras pandemias no mundo foram piores do que essa em número de mortes e passaram. Só que quando a gente está no olho do furacão a gente não consegue enxergar isso”, diz. 

Neste contexto, o psicoterapeuta identifica duas reações principais: por um lado, muitas pessoas criam uma certa apatia, com a intenção de esquecer a realidade, que pode evoluir para uma fase depressiva. Por outro, outras vivem um certo desespero, angústia e frustração por querer que a situação passe logo.

“Neste sentido, a possibilidade da vacinação exerce um alento e esperança, mas por outro lado pode acentuar a sensação de desespero”, alerta. 

Ele faz um comparativo com um náufrago que vê o socorro chegar, mas a espera para ser resgatado gera ainda mais angústia. “Quando você vê o resgate vindo lá de longe, isso gera uma agitação. Mas ao ver que o resgate pode ser um pouco longe, durar mais uma semana, exacerba o desespero, a ansiedade e tudo o mais. A vacina traz essa luz no fim do túnel, esperança, mas também esse desespero, ainda mais no Reino Unido quando começou a vacinação e logo depois veio o aumento de casos e o lockdown”, afirma.

“Muita gente pensava que estava chegando ao fim, mas não. Agora é seguir os protocolos e continuar no caminho”, aconselha.

 

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